Próxima parada: o nada
Brotherhood (The Love We Share), 2022, Taiwo Odejinmi
Já nem sento mais no metrô. Está sempre tão cheio, e a cidade tão envelhecida, que meu cálculo me leva à economia de energia - penso, provavelmente teria que me levantar um minuto depois. Chegaria uma sexagenária de olhar fixo, ou logo uma de olhar entristecido, quiçá pela vida, quiçá não, puro drama, “All the world's a stage". A teatralização de si é a norma, e todos os assentos são considerados prioritários.
Outro dia, cutuquei um jovem com celular e fone para que se levantasse, ele não viu que tinha chegado uma mãe com uma criança pequena. Falar um jovem com celular parece redundante, a geração Z parece mais aérea que a Y. E olhe que eu me considero uma nefelibata. No metrô, se não estou com o meu filho, já entendi que o meu lugar é em pé. Pra me distrair, costumo fazer longos pliés, esticando os joelhos com calma, a partir da lenta torção da musculatura femural.
Há muita escrita sobre as existências mínimas que passam pelos trens. Da crônica ao rap, da quebrada ao subúrbio, o trem em si é um símbolo grávido de histórias. Recentemente, descobri o perfil @subwaytakes, do Kareem Rahma, só com verdades sobre Nova York, e os melhores comentadores da urbe contemporânea. Mas o meu ponto aqui diz respeito aos atuais entendimentos de comunidade e trabalho. Ou mais precisamente, sobre a hegemonia do individualismo e do cansaço. O que está me intrigando são os motivos que me fazem permanecer de pé mesmo quando há uma ou duas opções de assentos vazios.
Sentar é entendido como um símbolo de descansar, mas nem sempre foi assim. As primeiras cadeiras – objetos que associavam um assento a um encosto - apareceram no Egito antigo há cerca de 2.800 anos, e eram de uso restrito às pessoas que detinham poder político ou religioso. Foi só depois da Revolução Industrial que a cadeira se popularizou; primeiramente, com o propósito de aumentar a produtividade, já que sentadas, operárias e operários poderiam aguentar por mais tempo longas jornadas de trabalho.
É como se eu não me permitisse descansar, ou não quisesse ser confundida com uma soberba soberana. Manter-me de pé me coaduna com a massa de trabalhadores que leva esse país nas costas, e que é levada pelos trens. A trabalhadora é, antes de tudo, uma forte. Não tem a inconsciência individualista das sudestinas da zona sul carioca. "A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário”.
ChatGPT, a partir da instrução ‘crie uma imagem de Euclides da Cunha em pé no metrô do Rio de Janeiro, em um vagão cheio'.
‘Você tem cara de rica’. Ouvi essa frase no ano passado, enquanto trabalhava na Rocinha. Minha coordenadora fez uma errata: “não, você tem cor de rica". Ela sabe na pele o que é ser mal interpretada. Minhas amigas negras colecionam relatos de maus tratos, não conseguem contar nos dedos a quantidade de vezes que passaram pelo constrangimento de serem vistas como perigosas, desleixadas ou criminosas.
No Brasil, as mulheres negras evitam entrar em farmácias para não serem vigiadas por seguranças de plantão. Em lojas, costumam ser apresentadas aos saldões e promoções - isto quando se permitem entrar nas lojas chiques. No último fim de semana, levei o meu filho ao teatro, e reparei que as famílias negras estavam sentadas no fundo da plateia. Por que não se sentaram na frente? Por que não compraram com a antecedência necessária?
Tem o trauma, é claro. Para esta dor, a reparação está apenas começando. Políticas públicas não são apenas necessárias como fundamentais. São elas que mitigam, na ponta, no povo, os racismos ambiental e institucional que se disfarçam em falta de saneamento básico, fraca seguridade social e trens sucateados.
Outra resposta possível tem a ver com a má fase da espontaneidade. Desde os anos 60, a coitadinha não andava tão em baixa. Compramos ingressos com antecedência, perguntamos se podemos ligar antes de ligar, corrigimos nossas olheiras no app de imagens. Trabalhamos incansavelmente para parecermos ter as melhores respostas e looks para os stories, 24 por 7. Em pleno dia do trabalhador, trabalhei um pouquinho, mesmo dizendo que não iria trabalhar.
No contexto das favelas, o jovem se cria no corre, empurrado para o mercado informal, e para fora das escolas. Na Rocinha, hoje, existem pelo menos 3000 motoqueiros cadastrados trabalhando com transporte. Na prática, tem mais. Ainda é grande o número de jovens que não conclui o ensino médio, e por isso o programa Pé de Meia, do atual governo Lula, colabora e muito com a diminuição da evasão escolar. Não é que a geração Z abomine a CLT. Apenas não é mais possível contar com este destino.
(Como é que eu vou sentar sabendo de tudo isso?)
Alysson, do @sacolaofruti, vendendo salada de frutas em cima de uma moto.
“Se você não trabalhar, três vezes mais do que o seu pai trabalhou, você não vai conseguir chegar ao que ele tinha". A sociedade neoliberal intensificou os regimes de trabalho, o descanso agora é luxo, não mais direito. Para existir o sujeito do desempenho, nem mais de chefe se precisa. “Somos RP de nós mesmos”, e jamais revelamos quem verdadeiramente somos. Outra estrelinha para o Lula, que em cadeia nacional na véspera do dia dos trabalhadores, posicionou-se a favor da redução da jornada 6 por 1.
Corta para: estação Largo do Machado, três de maio de 2025, nove horas da manhã. Até aquele momento, planejava ir ao show da Lady Gaga. Longe de merecer a alcunha de little monster, interesso-me pelas artes e pelo povo. Mas quando vislumbrei a potência do fã da geração Z, que cedo migrava para as areias de Gagacabana, percebi não estar alinhada com tamanha devoção.
O show foi incrível, vi no dia seguinte, atenta e razoavelmente descansada. Além das mil desculpas por não ter vindo antes, era sincera a emoção da artista, diante do rio de gente presente em sua homenagem. As gays, em sua maioria experientes no quesito solidão, encontraram em Gaga a mãe acolhedora que muitas não tiveram. Mother Monster convoca porque alimenta uma comunidade baseada na amizade, aquela que brilha e faz brilhar. No final do show, era nítida a fraternidade entre ela e seus dançarines.
Frame da Gaga
Estamos todas carentes de vínculo. Sei mais do Gregório Duvivier do que dos meus amigos que postam pouco no instagram. Vivi um puerpério meio solitário, super conectada nos grupos do whatsapp, mas o chameguinho que é bom, foi ficando para depois. Trabalho e filho na frente, e o descanso na rolagem dos stories. Parar, só se for para tomar banho ou descer com o cachorro. Numa dessas, imaginei uma animação na qual um dedo escapava da mão que rolava na tela do celular, ganhava asas e desaparecia entre as árvores.
Queria ter a coragem de voltar a usar um nokia velho e implodir todas as minhas redes sociais. Exceto o substack. A escrita é a minha Mother Monster, o jeito que eu gosto de sentar, o trem que eu gosto de pegar. Se é para morrer trabalhando, que seja escrevendo, entre livros e amigos. Nada mais do que isso, o nada, e todas as possibilidades afetivas que ele pode nos dar. Já experimentou fazer nada acompanhada? Gostoso demais. Podem vir a quarta temporada de ‘White Lotus’ e novos episódios de ‘O ensaio', Seinfeld continua sendo uma das minhas séries favoritas. Obrigada, de nada.






Tenho gostado muitos dos seus textos. E também gosto de Seinfeld. Rs