A palo seco
O texto de hoje não traz imagens nem hiperlinks. Não é engraçado, safado e muito menos espirituoso. Não menciona filósofos nem psicanalistas, tampouco foge do assunto principal. Vou me ater à sensação do agora, tensa, ruidosa e inconclusiva. Um paciente de 76 anos com possível doença neoplásica linfoproliferativa, ainda indeterminada, ainda indefinida, que na minha frente, perde quilos, perde a fome e a integridade física. O meu pai: torto, bobo, humano. Há cinco meses, ele era um homem que andava perfumado e bem vestido, não importasse a situação. Um tipo luxurioso, ligado aos prazeres da carne e do álcool. Hoje, está deitado em uma cama de CTI, recuperando-se de uma drenagem pleural. É a primeira vez que escrevo a palavra pleural. Eu sempre busco a fuga.
Até a semana passada, vinha conseguindo represar as emoções, agindo por estratégia e racionalidade. Ser o ponto focal numa trama de médicos, enfermeiros e atendentes de plano de saúde demandaria objetividade. O corpo humano é tão complexo e interligado, assim como a atual fase do capitalismo, que eu tentaria coordenar com frieza, porque na minha cabeça, gerentes não choram. Quando a MedSênior deu um prazo de 21 dias para autorizar o PET scan, eu incentivei que pagássemos por fora, pesquisei preços e marquei o exame. Enquanto minha madrasta estava no front, eu ficaria no operacional. “Como eu não entendia, eu arrumava as coisas", falou G.H.
É impossível fugir de si mesma. Uma pessoa com alma de artista jamais conseguiria agir como uma gerente germânica. Tampouco poderia ficar longe da arte, e percebo que não ter uma relação amorosa com os livros piorou o quadro clínico do meu pai. Se ao menos ele se apoiasse na literatura, pensei muitas vezes, ao encontrá-lo olhando para o teto, aterrorizado. Neste último final de semana, o pior dos últimos meses, ainda fiquei menstruada. Em uma das minhas idas ao banheiro, imaginei que nós mulheres, ao lidarmos mensalmente com o sangue, vamos também nos amigando com a morte.
São os gestos e as palavras que me salvam da tempestade, e eu estou no meio de uma. Penso em Clarice, e no caminho para a escola do Jonas, começo a escutar o áudiobook de “A paixão segundo G.H”, interpretado pela Mariana Lima. Sinto aquele fluxo como um abraço. Lembrei da Fernanda Montenegro, outra monstra: o papel do artista é confortar.
Vivi o luto da minha mãe morando em um flat de São Paulo que tinha banheira de hidromassagem. Sentia que a água quente me acolhia, e costumava ficar horas ali deitada, chorando e esperando por uma trégua na dor. No puerpério, quando eu estava morta viva de sono e cansaço, trancava-me no banheiro e transformava o banho num ritual de passagem. Saía renovada, e continuava a saga da amamentação voluntária.
No domingo passado, fiz carinho no cabelo dele, do mesmo jeito que faço no do meu filho. Boiando na cavidade dos ossos, seus olhos magros pareciam estar escapando da Terra. Disse muitas vezes que o amava, como nunca havia dito antes. Sempre guardei mágoas, e com ele, tenho a tendência a voltar nos mesmo tópicos. "Você culpa seus pais por tudo, e isso é absurdo". Mas naquela situação limítrofe, qualquer passado parecia irrelevante. Vivemos no caos, a normalidade é uma invenção moralista. Às vezes, a organicidade nos permite esquecer dessa condição. Automatizamos o cotidiano, e obliteramos o fator transitoriedade da vida.
Lidar com a morte me conecta ao amor irrestrito. Amo cada erro, cada mancada e cada vacilo do meu bolsominion de estimação. Assim como amo cada lembrança que tenho da minha mãe. Quando falo “caiu de maduro" para o meu filho, atualizo a sua prosódia. Quando apago a luz que a minha enteada deixou acesa, lembro da frase “não sou sócia da Light", que ela tanto repetia. Ao ser capaz de amar incondicionalmente, permito que os meus pais permaneçam vivos.
Disse G.H.: “todas as informações são terrivelmente incompletas”. O quadro clínico do meu pai está permeado de suspeitas. Uma delas é a de que esteja com uma doença chamada hemangioendotelioma epitelióide (EHE), um tipo raríssimo de tumor que se desenvolve a partir das células que revestem os vasos sanguíneos. Ao microscópio, as células tumorais parecem ninhos, uma imagem linda carregada de ovos sombrios. No Brasil, menos de uma em um milhão de pessoas tem essa doença. Menos de uma em um milhão.
Do nada, pode ocorrer uma alteração genética nas nossas células, ou podemos pisar em falso ao pé de um vulcão, levando toda a nossa trajetória para dentro da trajetória de quem nos ama. Ou para o ralo, como diria a minha mãe. “A vida é tão rara" e a língua é tão mãe.
Sinto como se estivesse há horas na estrada sem saber para qual destino estou a caminho. Pai, tá chegando? Perguntei agora para a médica se estamos mais perto do diagnóstico, e ela disse que corremos para isso. Se ao menos houvesse um algoritmo que inibisse o medo da finitude… Uma inteligência artificial que nos ajudasse a aceitar a fragilidade natural, uma tecnologia assistida que mitigasse o sofrimento de quem cuida. Compraria, pagaria o frete mais caro só para que chegasse até o fim dessa semana.
Perdi a minha mãe de forma súbita, e por isso pensei várias vezes que uma doença teria me preparado melhor para aquele dia. Hoje, sei que por mais previsível que seja, toda a morte é uma devastação. A única forma de se preparar para a sua chegada é vivendo uma boa vida. Cheia de festas, aventuras, aprendizados e vínculos. Mergulhos no que amamos, pactos com o que sonhamos. Somos o que comemos, mas também quem comemos. Somos o que falamos, vimos, lemos, vestimos, cheiramos, sentimos. Quem sabe assim, na hora que tudo estiver por um fio, a gente não consiga aceitar que a viagem está apenas começando.

